Chapada dos Veadeiros

 

Então... Não tenho muitas dicas a dar, porque a Chapada dos Veadeiros entrou no roteiro timidamente, aproveitando aquela oportunidade de uns dias antes das férias de fato que foram destinadas ao Jalapão. Tínhamos em mente dois destinos específicos: a cachoeira Santa Bárbara em Cavalcante e a trilha da Janela do Abismo, até mesmo porque foi minha segunda vez na Chapada e na primeira há doze anos eu havia feito os circuitos do parque.

 

Dica número um: alugue um carro, de preferência um mais alto para dar conta das estradas de terra, apesar de não estarem ruins! Como as distâncias a partir dos pontos comuns de hospedagem (Alto Paraíso, São Jorge e Cavalcante) são grandes, ter mobilidade é algo muito mais interessante que os roteiros das agências locais e o custo acaba se compensando.

 

A escolha por ficar na vila teve muito mais com a vontade de ficar em um local mais rústico que a proximidade dos pontos do roteiro, até mesmo porque a distância de 30Km entre São Jorge e Alto Paraíso com asfalto ficou muito mais confortável que na primeira visita quando era estrada de terra. Mas confesso que depois da Janela, não pegar a estrada foi uma dádiva!

Primeiro dia: Brasília x São Jorge com passadinha no Vale da Lua.

 

Alugamos o carro na noite da chegada em Brasília e optamos por seguir para São Jorge somente na manhã seguinte, decisão diferente do planejado, porque o tempo estava nublado e seria desnecessário correr risco à noite. A estrada está boa, mas com trechos longos sem nada, apenas o cerrado nos acompanhando e alguns trechos com muita neblina (fico imaginando à noite...).

 

Chegamos no início da tarde e seguimos direto para o Vale da Lua, já com a decisão de não tomar banho. Na estrada para São Jorge, a entrada fica à esquerda e mais uns 5Km de estrada de barro levam até à sede, onde pagamos R$ 20,00 de entrada. Quase todas as atrações da Chapada são pagas, pois estão em propriedades privadas. Caracas!!! Tem alguém dono do Vale da Lua!!!!

 

É um lugar fantástico, que faz jus ao nome por parecer a base da lua, esculpido por milhões de anos de erosão das rochas pela passagem das águas, que dessa vez estavam ligeiramente barrentas pelas chuvas no leito do rio. Trilha leve, super bem aproveitada na companhia do som dos insetos e pássaros. Quando pegamos a estrada de volta, o tempo começou a melhorar e o sorriso estampou o rosto daqueles que gostam de muita luz para fotografar.

 

Em São Jorge, fomos negociar a troca dos dias de hospedagem (íamos primeiro para Cavalcante, mas decidimos inverter por conta do tempo), fizemos check-in, fomos almoçar e passamos na Central de Atendimento ao turista para decidir o que fazer nos demais dias. O senhor que nos atendeu, foi fantástico nas dicas e cuidados nas trilhas. Assim, finalizamos com a decisão de fazer a Catarata de Couros e Janela do abismo, deixando o último dia livre a decidir conforme nosso estado físico (a minha gripe e tosse só pioravam). Para fechar, no final do dia, seguimos na estrada em direção a Colinas do Sul para ir às piscinas termais (uns 15 Km de São Jorge, com entrada à direita), mas decidimos por não entrar, porque estava frio do lado de fora e mesmo com as águas quentinhas, provavelmente o corpo, já gripado, iria reclamar. Acho até que o lugar vale mesmo a visita e o banho, mas só no final da tarde, quando os demais programas já estiverem sido esgotados.

 

 

 

Segundo dia: Catarata dos Couros

 

A partir de São Jorge, 30 Km de volta até a estrada principal de Alto Paraíso e depois mais 15Km sentido Brasília para começar pegar mais 35 Km de estrada de terra que leva até à Catarata. Fomos sem guia, seguindo a principal dica do rapaz que nos atendeu no CAT: sempre que houver bifurcação escolha a direita. Ele nos contou que estrada era sinalizada, mas que as placas foram retiradas pelo pessoal do MST que ocupou a área e que começou a cobrar pela entrada. O MP se envolveu e a entrada não é mais cobrada, mas eles ainda ficam no estacionamento recebendo “voluntariamente” pela guarda dos carros, cujo único risco imagino ser arranhado por uma siriema.

 

A trilha também é leve em todo o percurso: desde o estacionamento, passando pela catarata até o desfiladeiro em que as águas cor de coca-cola desembocam, seguindo o leito do rio, por aproximadamente 3 Km ida e volta, com alguns pontos de banho bem legais no meio do caminho. Eu acho até que daria para colocar outra cachoeira no mesmo dia, se tivéssemos saído mais cedo um pouco e se tivéssemos ficado menos tempo, mas sinceramente fazer um lugar lindo desses correndo não vale!

 

 

Terceiro dia: Janela do Abismo

 

O principal que tenho a dizer é que no início (que eu só vi no retorno) da trilha há uma placa que diz: “essa trilha será fechada em breve”, pela qual eu respondo no silêncio dos meus pensamentos: “Graças a Deus!”. Está aí um dos pontos que colocamos pelo roteiro: pela vista linda e pelas muitas fotos postadas. Havíamos passado por alguns blogs, muitos dizendo que não havia necessidade de guia, que a trilha era de nível entre fácil e médio, com uma parte íngreme não impossível no final. Eu então vou dar as mãos ao seu Getúlio e vou contar a verdade. Quem é seu Getúlio? Ele é o senhorzinho que cobras os R$ 15,00 pelas dicas da trilha, toma conta da base (apesar de falarem que é uma APA e que não deveria haver pagamento) e no discurso inicial fala: “O que vocês vão fazer lá? Não tem nada. Se acontecer algum acidente, não ligue pra mim, ligue para os Bombeiros. Mês passado uma argentina idiota foi fazer a trilha e não conseguiu voltar e passou a noite na trilha, com chuva e sem comida”. Essas são só algumas frases, foram muito mais outras, com um mal humor de fazer a nuca arrepiar. No primeiro quilômetro (ainda plano) eu e minha amiga ainda ficamos reclamando dele. Na volta, eu queria erguer um altar para Seu Getúlio e dizer que estava muito arrependida de não ter ouvido seus conselhos.

Eu tenho 44 anos, sou semi-sedentária e ainda por cima estou acima do peso. Até então, achava que os 5Km na esteira, quatro vezes por semana (às vezes 10Km nos fins de semana), me colocariam no patamar de semi. Mas aí veio essa trilha e me reclassificou para sedentária-mór. As condições adversas de um calor infernal regado por um sol a pino, partes tão íngremes que deveriam ser denominadas de escalada e a falta de um tchbum no caminho, fizeram com que eu chamasse esse de o pior dos programas de todos os tempos. Sinceramente, com tantas cachoeiras lindas e deliciosas, por que alguém escolhe um local dos infernos só para fazer uma selfie? E o pior... não divulgam isso nas redes sociais, blogs, revistas de viagem e tal. Eu só posso achar que as pessoas omitem a parte punk para dar continuidade ao mundo perfeito e cor de rosa do instagram. Bem... eu digo: NÃO VÁ! Eu fui e achei que nem conseguiria voltar (Juro!!! Teve momentos que faltou ar, faltou perna e eu só pensava: vou morrer aqui). Ainda bem que encontramos um casal no caminho que nos ajudou demais no retorno. Ao chegar de volta na casinha-base, seu Getúlio nos aguardava com pedaços de melancia cortadinhos e um sorriso na cara que guardava no pensamento “eu não te disse?”. Foi nesse momento que eu me apaixonei pelo velhinho ranzinza. Se ainda assim, você ao ler isso tudo, resolver ir, não esqueça de colocar o carro na parte de dentro, no estacionamento, já perto de onde começa a trilha (não deixe o carro na estrada). Juro que vai me agradecer por essa dica, pois são 500 metros de felicidade.

Outra dica é: dá para fazer sem guia, pois há marcação (muitas vezes um pouco apagadas) de setas amarelas ou laranja no caminho, que precisam ser buscadas com muita atenção. Se tiver a ideia de jerico de ir no final da tarde para o pôr do sol, vai precisar de um guia (e também um rosário para as orações), além de uma lanterna das boas.

Para finalizar: eu não recomendo essa trilha nem para o pior dos meus inimigos. Se você quer uma foto maneira do lugar procure no Instagam e aprenda a usar o photoshop. Só para constar, minha amiga tem 23 anos, peso pena, malha e também não foi fácil (é claro que o desempenho dela foi muito menos pior que o meu). Logo, ainda que você dispute o Ironman, NÃO VÁ. Mais uma vez, pra quê? Desperdício de tempo para conhecer outros locais muito mais divertidos, lindos e refrescantes.

Chegamos a São Jorge e o destino foi a farmácia primeiro (esperando um milagre, porque a tosse só piorou depois da escalada punk) e depois fomos comer.  Não me pergunte como eu tive condições de à noite sair, mas conseguimos reunir forças para jantar na risoteria (dica: chegar cedo para pegar uma fila pequena). Se valeu a pena? Bem... relato completo abaixo, na seção “onde comemos”.


 

Quarto dia: Cordovil
 

A entrada para a base da trilha está na estrada sentido Alto Paraíso, à direita, a uns 6 km de São Jorge, também fica em uma área particular com o pagamento de R$ 25,00. O circuito tem 10Km (ida e volt) de trilha 90% plana, ainda que sem sombra. Nos últimos 500 metros, a trilha se torna uma travessia nas pedras e partes um pouco mais íngremes. Como eu havia feito a janela do abismo no dia anterior, achei esse trecho fácil como usar uma escada rolante.

Fizemos o circuito fora de ordem: parando sem banho no Poço das Esmeraldas, seguimos para Cordovil onde ficamos a maior parte do dia e no retorno paramos para o último banho na Rodeador. A Cordovil tem um poço enorme com duas pedras que servem como bancos bem próximos às quedas. Dá para sentar lá por meia hora e deixar a água bater e levar todas os pensamentos negativos. O poço das esmeraldas te deixa com aquele queixo caído de ver o mais verde de todos em uma piscina no meio das pedras. Dá a impressão que os olhos estão com excesso de saturação dos efeitos de mal gosto que colocam nas fotografias, mas não é, o negócio é simplesmente fantástico. O sol, na verdade é o editor, nesse caso. A Cachoeira do Roteador é uma única queda, seguida por um mini canion, o banho antes da queda é simplesmente fabuloso!

Paramos em Alto Paraíso para almoçar e seguimos para Cavalcante, mais 90Km de estrada. Havíamos perdido a reserva e fomos seguindo as placas na estrada até a Pousada Aruana e então tivemos a mais bela supresa: um lugar todo lindo, com um astral delicioso, com quartos simples, mas super confortáveis, chuveiro quentinho com água super forte e um jardim de dar vontade de ficar na rede por todo um dia sem fazer nada. Um oásis para minha semana infernal de tosse. Essa pousada me deu muita vontade de passar uma semana em Cavalcante para explorar mais. 

Quinto dia: Santa Bárbara e retorno à Brasilia

Do início da estrada de terra até o quilombo são 25Km de estrada de terra, bem boa por sinal. Chegando lá, a contratação de um guia é obrigatória que custa 100 pilas (que poderia ser divido por todo um grupo, mas que dancei porque estava sozinha), mais 20 pilas da entrada. Depois disso eles ainda tentam morder mais uma graninha para fazer um transporte do do quilombo até a base da trilha, pois dizem que o carro comum tem dificuldades. Não paguei, afinal, tinha alugado um carro alto não foi à toa. Não é uma estrada mesmo das melhores, mas tinha até fiat uno no caminho. E ainda tem mais, há um limite de permanência de uma hora na cachoeira. É linda sim, de um azul que ficou colado na minha memória. Eu não entrei na água, estava frio e com a tosse preferi não ajudar a piorar com o combinado de água gelada + vento. Não consegui fazer fotos sem pessoas e fiquei com aquela ideia inicial que durante a semana, seria um programa bem mais legal, a frustração diminuiu ao lembrar que na nossa programação inicial era dia de semana, mas sem luz não seria boa opção,  realmente há necessidade do sol (principalmente o das 11 horas, quando a incidência dos raios coloca mais cor ainda).

Tive tempo ainda para fazer umas fotos no quilombo e parar algumas muitas vezes naquela estrada linda de terra vermelha emoldurada pelo céu azul de desenho animado, inclusive no mirante que tem uma das mais belas vistas da viagem.

Cumprindo direitinho o que estava no roteiro, pegamos a estrada às 14:00 rumo à Brasília para devolver o carro e pegar nosso voo para Palmas. O Jalapão estava à nossa espera.

Onde ficamos:

América Bittar – Foi a opção mais baratinha do setor hoteleiro norte de Brasília, com custo x benefício válido para uma noite: cama limpa e chuveiro quente; café da manhã honesto, mas longe de saboroso, eu diria que impessoal. Não tem estacionamento próprio, mas o funcionário estaciona no hotel ao lado do mesmo grupo.

 

Pousada Trilha Violeta – quartos simples, sem ar condicionado, café da manhã bem gostoso incluindo ovos e tapioca. Precisamos alterar nossa reserva e fomos atendidos super bem.

 

Pousada Aruana – de uma carioca que fez muito bem em largar tudo e se mandar, a pousada parece um oásis, com decoração nos remetendo às linhas de Nazca e um buda com feições incas. Jardins muito bem cuidados, quartos amplos, limpos, chuveiro quente, iluminação por placas solares, café da manhã cheio de charme, redes espalhadas e uma vontade de ficar mais. O senhor que nos recebeu era tão educado, mas tão educado, que me fez rever meu comportamento usual (hahahahaha).


 

Onde comemos:

Mais uma vez eu vou fazer minha relação, mas todos sabem que eu não tenho especialização gourmet, como em qualquer lugar, gosto de quase tudo e o importante mesmo nas minhas viagens é o resultado fotográfico, mas preciso falar mais de dois lugares com mais carinho: Santo Cerrado e Vendinha 1961.

Santo Cerrado – Em São Jorge. Não é barato, mas vale o prazer proporcionado e a especialidade de se comer um risoto à italiana (de verdade) mesclado com sabores brasileiros. Apesar de porção individual, eu e minha amiga comemos uma única e pedimos medalhão de filé como complemento e deu muito bem! Ficamos no risoto de gorgonzola com pêra (isso mesmo!!). Não dá para descrever. Só quem viveu a experiência, sabe o sabor. Mas a experiência não parou por aí, porque tudo isso foi regado ao mais famoso drink da casa: uvas moscatel (aquela redondinha que consumimos muito nas festas natalinas) com manjericão e vodka (ou cachaça). Peloamordedeos... eu achei que a combinação era louca até provar o primeiro gole e parar só no segundo copo (que por sinal parece um balde). Tudo isso com um ambiente super lindo, baixa luz, música ao vivo e muita conversa!


Vendinha 1961 – Em Alto Paraíso. O melhor pastel que já comi em toda minha vida: mais recheio que massa, que não escorre nas mãos ao ser mordido. O restaurante tem mais opções, é bem movimentado e tem um excelente atendimento. Na segunda, antes de seguirmos para Cavalcante passamos lá e no dia seguinte, ao voltarmos para Brasília também passamos lá. Estava fechado nos dois dias. Pensa em uma pessoa frustrada, agora multiplica por 100. Esse é o resultado da minha frustração.

Restaurante da Nenzinha – em São Jorge, na rua principal, perto da farmácia. Opção a quilo, honesta e baratinha.

 

Luar com Pimenta - na primeira noite em São Jorge, tentamos ir jantar na risoteria, mas o lugar estava abarrotado, então optamos por uma pizza, onde rola música ao vivo e onde gamei na bruscheta de banana da terra com gorgonzola. Boa opção, mas nada de “Uau!”

 

Almoçamos em um restaurante praticamente em frente à nossa pousada após a trilha do Abismo, mas não lembro o nome, a comidinha estava bem gostosa e fomos atendidos super bem, por um preço bem legal em um prato bem gostoso de filé mignon com fritas e uma farofa de ovos dos deuses.

 

Chapadócia – Como batemos com a cara na porta em Alto Paraíso e ainda pegaríamos estrada, paramos em um dos poucos restaurantes abertos na cidade e foi uma agradável surpresa com quibe, arroz, feijão, fritas e salada. Atendimento super bom de uma gaúcha que não me contou o segredo do tempero do quibe de forno!! Mas me ofereceu um pedaço de gengibre para eu tentar me livrar da rouquidão da gripe.

 

Na estrada, perto do Povoado Santiago, vale uma paradinha para experimentar a coxinha sem massa da Lanchonete Portugal, o lugar mais parece uma vendinha com vários cartazes velhos de Portugal colados nas paredes, você come no balcão mesmo com uma coca-cola na outra mão. O local foi inaugurado há mais de 40 anos pelo Seu José (vulgo Portuga) e sua esposa inventou a coxinha que na verdade não é sem massa, mas é tão fininha e com uma farinha diferente que realmente parece ser feita sem massa e o local virou ponto de parada oficial. Na estrada tem umas placas indicando e fica do lado direito no sentido Brasilia x Alto Paraíso.